quarta-feira, março 30, 2005

Memoirs (possivelmente o francês não está correcto)

Pois é, sento-me ao teclado para escrevinhar aqui qualquer coisa (não que os pedidos sejam insistentes mas simplesmente porque sim) enquanto acompanho com moderada curiosidade o diferido do jogo entre Grécia e Albânia no Eurosport, quando até já sei o resultado final (2x0). Sim, tenho uma vida preenchida, mas não é disto que vos venho falar hoje. É, portanto, sobre outra coisa. Que não aquela. Uma outra, diversa. Diferente. Não a mesma. Também não é sobre redundância. Nem sobre elefantes cor-de-laranja com problemas de garganta. Imagino que seja fácil advinhar qual o tema do escrito que se segue, tamanha é a reticência demonstrada em sequer mencioná-lo. Nem mais - a chamada "tinta branca" ou "tinta correctora" ou o meu personal favourite - "ideia do inferno lançada na Terra para destruir a boa vontade dos Homens". Nem vou, para não baixar o nível, fazer trocadilhos ou brincadeiras usando o potencial sexual da coisa, não o farei e recuso-me mesmo. Imagem vocês o que quiserem, seus badalhocos. Desde "puto" que aquela trampa (de novo, a tinta branca, nada mais) me enerva como poucas coisas no universo (assim, rapidamente, algumas - a saber - maionese, amêndoas, tinta branca, chapéus de chuva, CDs sem nome, meias molhadas, chuva ácida, entre outros). Nunca tive muito talento pra trabalhos manuais - a chamada EVT (educação visual e tecnológica). Nenhum mesmo. Eu era aquele miudo que desenhava a familia , uma casa e o jardim e toda a gente achava que era "arte abstracta". Assim, podem imaginar o meu tormento quando a professora primária disse que não queria ver os ditados riscados e que quando nos enganassemos deviamos utilizar tinta branca. "Oh merda", pensei imediatamente. E claro, tinha razão. Para já, a quantidade. Punha um pouco e não chegava. Apertava com mais algum afinco e toda a página estava agora apagada para todo o sempre. Depois de muita prática consegui acertar esse problema, embora de tempos a tempos ele retornasse. Mas adiante. Aplicava aquela estúpida pasta, soprava como se não houvesse amanhã e, quando tinha certeza que já estava seco, escrevia por cima. Mas não estava, lógico que não. 45 minutos não chegava para aquilo secar. Agora,tudo estava borrado, uma espécie de bolha formara-se sobre a folha e que rebentava impulsionando milhares de pequenas particulas em todas as direcções (incluindo o queixo do colega do lado, que reagia como se tivesse sido atingido por um pedaço de ranhoca radioactiva, berrando por ajuda para todo o quarteirão.). Além da desgraça e de não ter solucionado, apenas agravado, o meu problema, a maldita caneta azul estava agora com a ponta branca, pelo que tudo o que era escrito a partir daí vinha num alvi-celeste muito pouco legível, de resto, nada ajudado pela minha premiada caligrafia, tão sovada por todo e cada professor que tive durante a minha agradável infância. Sim, este era o dia mais temido por mim em todo o ano lectivo. Não eram os testes, os exames, as chamadas orais mas sim o dia em que os educandos acordavam mal dispostos e decidiam avaliar os cadernos de toda a gente. Horrível. Eu até tinha os sumários em dia, normalmente estava atento nas aulas e por isso não faltavam apontamentos. Claro que a apresentação era menos que perfeita. Sublinhados, poucos. Marcadores multi-colores fluorescentes, nenhuns. Tudo dentro das margens, nem sempre. Coisas escritas de cabeça para baixo, mais vezes que devia, suponho. Riscos, vários. Jogos do galo, alguns. Nunca percebi o drama de ter aquilo como eles queriam. Se os apontamentos estavam a funcionar para mim, e estavam, porque raio devia adaptar-me ao sistema deles? Enfim. Outra coisa que sempre me fez alguma confusão na escola era quando os professores iam ensinar alguma coisa que era aparentemente complexa demais para a nossa idade então diziam mesmo que o que iam dizer agora estava ERRADO mas que era só para nós percebermos. Mais à frente, algures, alguém provavelmente nos ia mostrar como se fazia bem - não me recordo de tal acontecer. Algo que demorei algum tempo a entender foi "porque diabo os mais velhos tem sempre prioridade em relação aos campos de futebol?" Com o passar dos anos, percebi perfeitamente.
Pois é, até escrever pela primeira vez neste texto a expressão "tinta branca", não fazia ideia sobre o que ia reflectir aqui. Foi "engonhando", enrolando, procurando alguma ideia. Por algum motivo sinistro tenho esse objecto odioso na minha mesa (tinha, já o recambiei pra Sibéria) e decidi divagar sobre isto. Resultado, tempo precioso vosso roubado e uma espécie de psicanálise para mim, com uma pequena viagem a esse tempo tão distante e tão próximo, tão cheio de memórias.
(Pensamento final - não ponham tinta branca no leite de ninguém, mesmo que a besta tenha, de facto, roubado uma caderneta vossa com ameaça de porrada. Não só é errado como ele pode ficar um tanto ou quanto azul na face e, pior de tudo, "chibar-se"...)

2 Comments:

Blogger mj said...

llllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooollllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll!!

E as borrachas que supostamente apagavam caneta?aquelas metade azul, metade cor-de-rosa, sendo que a parte azul servia pra apagar tinta?
Quem raio terá registado a patente disso?quem raio terá realmente acreditado que aquilo realmente apagava tinta?

...Tu eras um puto smp mt atento, com a borrachinha branca sempre em cima da mesa e um estojo que era uma nota de dólar em pano - já em puto te revelavas convictamente americanizado e capitalista :p - cheio de papéis e bilhetinhos da idade do gelo.
Que saudades desses tempos!

11:05 a.m.  
Blogger PedroSilva said...

Sim, aquela borrachinha meia rapaz, meia rapariga é um dos grandes barretes que tentaram enfiar aos putos. Mas eu topei-os logo! Aquilo nunca apagou tinta nenhuma, aliás, nem lápis! No entando a borracha demonstrou-se muito útil para ser atirada a outras pessoas.

12:21 p.m.  

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