sábado, setembro 24, 2005

A demanda da esferográfica

Antes de mais, um valente "viva", "olá" "hey" ou, simplesmente "blergh" aos poucos (se alguns) que depois de meses aparecem por aqui procurando, quais cães famintos, um bocadinho de prosa mal redigida.
A história que se segue é baseada em factos verídicos.
Diz a lenda que, algures no tempo e no espaço, Deus mandou um certo grupo de ingleses com mobília redonda procurar uma tacita ou um cálice ou um graal ou lá o que era sagrado. Seria perigoso, díficil mas, no fim, valeria a pena, se não pelo misticismo e santo da coisa, pelo menos pelo pormenorzinho da vida eterna que o caneco prometia. Infelizmente, a minha demanda não foi tão recompensante nem muito menos interessante - foi, isso sim, iluminadora de alguns aspectos.
Deixem que vos digue uma coisa - escolher uma caneta é muito mais complexo do que qualquer um de nós poderia pensar.
Assim que entro, com a minha amiga possuidora da boa ideia e motivação necesárias para levar a cabo tal busca, na loja de material de escritório começo a reparar que algo de muito errado se passa naquele sitio. Afinal, "material de escritório" é algo de muito vago e abrangente - não só comercializam os esperados cadernos, "lapes", papel, capas plásticas como também uma série de sob-produtos mais ou menos (alguns bastante menos) relacionados como leitores de dvd, mochilas de crianças e garrafas de água e detergentes.
Eis pois que Tana Maria (o seu nome foi alterado para proteger a sua identidade) começa a demonstrar uma subida súbita (e nada justificada) dos níveis de entusiasmo - estamos, afinal, a falar de canetas, não de diamantes. Quando nos deparamos com uma parede com uns bons 10 metros de extensão do dito objecto, percebemos que Tana fará uma escolha pensada, reflectida e metódica do seu instrumento de trabalho para o ano lectivo que agora começa. E pois que assim o é - há várias fases e parâmetros nesta acção: para começar, vamos começar por escolher o tipo de caneta - é para escrever, pintar, sublinhar, marcar, desenhar, ou para quê? Definida a função primordial, temos que escolher a cor - o primeiro grande (enorme, gigantesco, goliesco, titânico) obstáculo. Os quinze (literalmente) minutos investidos numa primeira fase de selecção da cor base são seguidos de uma segunda fase, também vagarosa, de selecção do tom da cor - sim, porque não existe "cor-de-rosa", existem vários milhares de cores-de-rosa, cada um tão específico quanto indistintível ao olho masculino nú. Nesta altura, o melhor é concordar sempre que ela encontra uma tonalidade melhor e nos questiona sobre esse mesmo facto. Muito cuidado com a pergunta "Mas é mesmo mais giro ou estás a dizer que sim simplesmente porque estás farto?", é, sem dúvida, uma pergunta com armadilha. Mas temos mais fases - quero uma caneta de gel (?!) ou normal? De tampa ou de clike? De que material é feita? É resistente? Não é parecida com a de mais ninguém? É...complexo. Temos, enfim, um pequeno intervalo lúdico aquando da compra da detestável "tinta branca", objecto por si miserável, mas que nos permite um pequeno rol de piadas sexuais de nível duvidoso. Mas é uma curta pausa e quando damos por nós estamos a decidir porque carga de água não deve ela levar uma resma de papel de impressora da marca X mas sim da Y, visto não querer, de modo algum, que o papel seja "brilhante" (whatever the hell that means!"). "AH! Também preciso de uma capa!" vamos, pois, procurar capas. Esta é muito gira, mas é A3 e quero A4, não haverá a mesma capa em outro tamano? Talvez não, o melhor é procurar outra. Esta é do tamanho bom, mas é um bocado feia. O ideal era se pudesse combinar as cores destas duas capas. Bom, também posso colocar fotos por cima! Hum.. não sei... Ah! Esta é muito gira não é? Ah... mas é de cartão (e...?) se chove ainda se estraga...duh! (ah, pois, que parvo eu, que não equaciono a chuva quando adquiro material deste).
Para bem da sanidade mental dos leitores, e sobretudo da minha própria, alguns detalhes serão omitidos, pelo que chega assim ao fim a demanda da caneta. O pagamento foi efectuado (com as contas mentais dos preços feitas pelo vosso simpático narrador a baterem certo, refira-se) e os intervenientes sairam do estabelecimento comercial, não tendo, até à data desta história (passou-se ontem, isto) retornado ao local....

4 Comments:

Blogger c. said...

Muito, muito bom :)
Um grande regresso, espera-se continuidade, se possível.

Quando eu era piquena, as canetas e os marcadores também me faziam feliz. Agora, porém, tornei-me numa estudante de Direito insensível a esses detalhes e desleixada, detentora de apenas duas canetas esferográficas pretas - uma do Totta, outra de uma marca de fármacos - e de um caderno multiusos que serve simultaneamente para as quatro cadeiras da faculdade e para livro de receitas.

beijos e feliz rentrée

11:50 a.m.  
Blogger mj said...

loool
Ja tinha saudades...
Beijos

1:11 p.m.  
Blogger evil mandela said...

Gosto.

6:37 p.m.  
Blogger Deb said...

Estou neste momento na aula de Atelier de Jornalismo e EIS SENÃO QUANDO deparo com este... texto. Segunda-feira, manhã de sono e... queres que me ria? Só te tenho a dizer que tenho ao meu lado o meu estojo e caderno com aspecto NOVO e isso deixa-me muito mais feliz. Acredita que o tormento para encontrar o meu material escolar foi a tua salvação para não ouvires comentários mais desagradáveis da minha parte. Agora, a Prof. chama. Inté

12:20 p.m.  

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